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Voto de pesar nº 8/2013 - Falecimento do Arquitecto Manuel Vicente
13-03-2013

Apresentado: 13.3.2013
Resultado: Aprovado por unanimidade

Manuel da Conceição Machado Vicente nasceu em Lisboa, a 8 de Novembro, de 1934. Em 1962 obtém o Diploma de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.

Inicia a actividade profissional colaborando com Alberto Pessoa e Nuno Teotónio Pereira. Em 1961, antes de completar o Concurso para a Obtenção do Diploma de Arquitectura, parte para Goa onde, de acordo com o seu amigo Charles Correa, algumas das suas obras ainda persistem. O encontro com Macau (R.P.China) ocorre em 1962, a convite de Leopoldo de Almeida, para constituir a equipa do Plano do Porto Exterior; ao longo de quatro anos elaborará um conjunto significativo de planos – como Colinas da Penha e Barra, Ilha Verde – e edifícios como o Orfanato Helen Liang que marcam a cidade, mas também a revisão critica da arquitectura moderna portuguesa. Em 1966 ao regressar a Lisboa, é convidado por Conceição Silva a integrar o seu escritório, aí permanecerá um curto período partindo em seguida para o Funchal onde colabora com Rui Goes Ferreira, sendo o Conjunto Habitacional do Grémio das Bordadeiras uma obra exemplar de riqueza formal e compreensão do território.

Entre 1968/1969, interrompe o seu percurso profissional partindo para Filadélfia (EUA) onde irá frequentar a classe de Louis Khan, um dos últimos mestres da arquitectura moderna que irá ser a partir daí uma das suas referências maiores e com quem obtém o Master in Architecture. A ligação à universidade mantê-la-á desde então como Professor, na ESBAL, Universidade de Hong Kong, IST e UAL, e através de conferências por todo o mundo.

Em 1969 abre o seu escritório em Lisboa, na Travessa do Noronha, ponto de referência e encontro de muitos arquitectos e intelectuais desta cidade nos 30 anos seguintes. Neste época fará parte da equipa de arquitectos ao serviço do município de Lisboa, entre os quais Chorão Ramalho e Hestnes Ferreira, que, coordenados por Filipe Lopes, irão desenvolver as Unidades de Ordenamento previstas no Plano Geral de Urbanização de Lisboa (Plano de Meyer-Heine, 1967, publicado em 1977), sendo coordenador do plano UNOR 26, concretizado desde então entre a Praça Francisco Sá Carneiro, a Encosta das Olaias e Av. Marechal Francisco Costa Gomes; o Bairro Portugal Novo, desenvolvido no âmbito do Programa SAAL; este bairro e o edifício de habitação na Zona N2 de Chelas, este elaborado com Chorão Ramalho, são marcos em Lisboa de uma cidade que se constrói densa e partindo da habitação.

Entre 1973 e 1976 coordena a Equipa de Planeamento Habitacional do Fundo de Fomento da Habitação, defendendo a ocupação dos vazios nas cidades em detrimento da construção nas periferias, prevendo o esvaziamento do centro e o perigo de fragmentação social da opção então seguida.

Regressa a Macau em 1976, sem nunca deixar Lisboa, num permanente percurso entre os dois territórios. Entre as centenas de projectos que elaborou ao longo da sua carreira, poder-se-á ainda destacar a titulo de exemplo, em Macau, o Conjunto Habitacional do Fai Chi Kei, galardoado com a Medalha de Ouro ARCASIA (que repetiria em 2005 com a Praça Nam Van) e o Plano da Baía da Praia Grande; em Lisboa, a Reconstrução da Casa dos Bicos para a XVII Exposição de Arte Ciência e Cultura e a não construída Fundação Aga Khan, uma das suas muitas criações não concretizadas, ambas com José Daniel Santa-Rita. A sua proposta vencedora do Concurso de Ideias de Arquitectura para a EXPO 98 foi outro dos seus contributos para o repensar da cidade. A remodelação da Casa dos Bicos para instalação da Fundação José Saramago e a instalação do Centro de Acolhimento da Cerca Velha, desenhado com João Santa Rita para o município de Lisboa, são as suas derradeiras obras.

Em 2011 a sua obra foi objecto de uma exposição antológica “Manuel Vicente, trama e emoção”, inaugurada no Museu Oriente em Lisboa, depois apresentada em Coimbra, Porto e em Guimarães durante a Capital Europeia da Cultura.
Entre outros galardões foi distinguido com o Prémio de Arquitectura AICA/ Secretaria de Estado da Cultura (1987) e com o Prémio da Associação de Arquitectos de Macau (1993). Em 1998 foi agraciado com o grau de Grande Oficial da Ordem de Mérito por Sua Excelência o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio.

Foi membro da comissão instaladora da Associação de Arquitectos Portugueses (1975/1977) e vice-presidente da Ordem dos Arquitectos (2002 a 2007), assumindo o cargo de Presidente em 2007. Era seu membro honorário desde 2010.

Faleceu em Lisboa no dia 9 de Março de 2013.

Manuel Vicente é um dos mais importantes arquitectos portugueses contemporâneos, para quem a arquitectura é o espaço do ser, do mais pequeno ao imenso, onde acima de tudo está o homem.

Pela importância da sua obra arquitectónica, urbanística e pedagógica, não apenas na cidade de Lisboa, vem o Município expressar à família as mais sentidas condolências.

A Vereadora

Helena Roseta